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Compra verde

Diretor de qualidade da Joal Teitelbaum relata experiência da construtora para obter a certificação de empreendimentos residenciais sustentáveis.

As construções com selo de sustentabilidade têm ganhado espaço no mercado brasileiro. São diversos selos que atestam o grau de comprometimento dos empreendimentos com o meio ambiente. Um desses selos, o Leadership in Energy and Environmental Design (LEED), coloca o Brasil em quarto lugar no ranking mundial de pedidos de certificação – foram registrados 640 pedidos, e desde 2007 já foram emitidos 79 certificados LEED para construções nacionais. Na frente do Brasil, estão Estados Unidos, China e Emirados Árabes.

O selo Alta Qualidade Ambiental (AQUA), desenvolvido pela Fundação Vanzolini, foi atualizado em 2013 para edifícios habitacionais e apresenta como referencial técnico para obter a certificação 14 critérios de avaliação, que podem ser agrupados em quatro famílias: sítio e construção, gestão, conforto (higrotérmico, acústico, visual e olfativo) e saúde. Desde 2008, o selo Aqua foi conseguido por 92 empreendimentos, sendo 32 para edifícios habitacionais, 14 para torres corporativas de escritórios e 12 para empresas de comercio varejista.

Para atingir essas metas e conseguir o selo de empreendimento sustentável, são necessários investimentos, por isso, as construções sustentáveis são mais caras que as comuns. A construtora e incorporadora gaúcha Joal Teitelbaum trabalha com certificações sustentáveis desde 2007. O portfólio de empreendimentos da empresa é dividido em 15% comercial e 85% residencial. Na entrevista a seguir, o diretor de qualidade da empresa, o engenheiro Claudio Teitelbaum, fala da experiência da construtora com os empreendimentos residenciais sustentáveis. Além disso, ele analisa o mercado brasileiro de materiais para as construções sustentáveis e lamenta a falta de incentivo fiscal para os empreendimentos que seguem quesitos de sustentabilidade.

A sustentabilidade não pode ser tratada como marketing ou como produto. Ela deve estar inserida nos processos empresariais.

Quais os principais desafios para as construções sustentáveis?
Entendo que começa pela adaptação da cultura empresarial. A sustentabilidade não pode ser tratada como marketing ou como produto. Ela deve estar inserida nos processos empresariais e projetada desde a concepção dos prédios e novas construções. Existem metodologias de Green Procurement que podem auxiliar as empresas – e as próprias certificações são um bom começo. Além disso, o governo deveria atuar também na facilitação da implementação de novas tecnologias, por meio de incentivos fiscais e tributários, por exemplo, como acontece em diversos países da Europa.

Todos os empreendimentos residenciais – sejam de alto, médio ou baixo padrão – são passíveis de serem sustentáveis?
Não existe padrão, dimensão ou tipologia. Se o empreendimento for projetado desde o início obedecendo às regras que conduzem à sustentabilidade, ele obterá os selos que certificam a sustentabilidade. Porém, o nível aplicado de sustentabilidade depende da dimensão e do padrão do empreendimento. Ou seja, o nível de sustentabilidade que o residencial vai ter depende do valor do investimento feito na compra de determinados itens, como energia fotovoltaica, aquecimento solar, tratamento de efluentes e esquadrias especiais. Isso varia de obra para obra. Em geral, o residencial sustentável custa de 2% a 5% mais que um empreendimento não sustentável.

Existe alguma lei, norma ou recomendação que é seguida pelos projetistas na hora de especificar materiais sustentáveis?
Não existem leis. Existem alguns materiais que são proibidos pela legislação, mas isso é obrigação. Existem também pré-requisitos de algumas certificações, como uso de formaldeído ou compostos orgânicos voláteis. Mas o principal mesmo é obedecer às melhores práticas e o setor de logística/suprimentos estar alinhado à cultura sustentável da empresa. Não existem materiais mais recomendados, mas sim sistemas, como energia solar, reúso da água da chuva e vidros especiais, e tudo isso depende de um bom projeto.

A compra dos materiais para empreendimentos sustentáveis obedece a alguma determinação diferente da compra dos materiais para empreendimentos comuns?
Sim, é diferente. Usamos uma metodologia sustentável de compras, chamada de Green Procurement. Basicamente, verificamos a procedência dos materiais, a distância do empreendimento em construção em relação aos possíveis fornecedores e optamos pela regionalização ao comprar os materiais. Além disso, também averiguamos a formulação dos produtos, o conteúdo de materiais reciclados pré e pós-consumo e verificamos se a composição dos produtos não contém elementos nocivos à natureza.

Há parcerias com os fornecedores?
Sim. A parceria é fundamental. Existem setores dentro da construção civil já bem desenvolvidos nessa área, como aço, pintura e blocos cerâmicos. O aço já vem cortado e dobrado, evitando o desperdício. O bloco cerâmico vem paletizado e as vistas de paredes são todas projetadas, passando instalações elétricas e hidrossanitárias pelo interior das paredes sem causar quebras. As tintas hoje são produzidas sem solventes. E nas estruturas de concreto armado usamos fôrmas de polipropileno, que chegam a reduzir em 80% o uso da madeira nessa fase da obra.

É difícil comprar materiais sustentáveis, de forma técnica, no mercado brasileiro?
Hoje, com certeza, está mais fácil do que há cinco ou seis anos. No entanto, alguns laudos ou especificações dos fabricantes são difíceis de serem obtidos, como, por exemplo, índices de refletância para cerâmicas, isolamento de fumaça para vedações de esquadrias de madeira, composição de material reciclado dos produtos. Isso só vai melhorar quando grande parte das construtoras der atenção a esses quesitos, o que ainda levará, com certeza, uns dez anos. Ou uma mudança de legislação, com incentivos para aqueles que comprovarem o uso de materiais sustentáveis em seus empreendimentos.

Alguns laudos ou especificações dos fabricantes são difíceis de serem obtidos. Isso só vai melhorar quando grande parte das construtoras der atenção a esses quesitos.

Quais são as iniciativas de sustentabilidade que a empresa toma no canteiro de obras?
São diversas e variam de caso a caso, dependendo da duração da obra e do tamanho do canteiro. Temos metodologias para redução do uso da energia elétrica, da água, reciclagem de materiais, uso de madeira com manejo controlado, lâmpadas e luminárias eficientes, sensores de presença, “fumódromo”, refeitórios organizados, salas de convívio, hortas com pomar e herbário para uso dos trabalhadores, e muito treinamento. Fazemos campanha do agasalho e compra de material escolar para os filhos dos trabalhadores. Lembramos sempre que sustentabilidade não é só meio ambiente. Este deve estar integrado com a responsabilidade social e com o lado econômico, com a viabilidade.

A gestão de resíduos onera a obra?
Não onera. Ela educa. Fazemos a destinação de resíduos por um plano de gerenciamento. Temos indicadores que medem a quantidade de resíduos e trabalhamos no primeiro dos “três Rs” (reduzir, reutilizar e reciclar). O foco total é na redução dos resíduos por meio de projetos bem-feitos e padronizados. Além disso, há o treinamento dos trabalhadores. Porém, o mercado para a destinação de resíduos poderia melhorar no País, pela destinação de mais áreas para a disposição de resíduos recicláveis.

A entrevista original Por Luis Ricardo Bérgamo na PINIWeb você encontra aqui.

Para outras publicações no BIG sobre o LEED, Referncial AQUA e empreendimentos sustentáveis, é só clicar aqui!

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Sobre Carlos Galassi

Arquiteto formado pela FAU/UFBa, possui especialização (MBA) em Gerenciamento de Projetos na FGV. Tem ampla experiência na implantação, gerenciamento e manutenção predial de empreendimentos de grande porte da Construção Civil, já tendo desempenhado estas atividades fora do Brasil. Além de Desenvolvedor e Editor do BIG, atua como Voluntário no PMI Capítulo Bahia como Diretor de Comunicação e Marketing e é sócio da OCA Solutions, empresa de consultoria empresarial.

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