BIG News

Especificação verde

Arquiteto Sérgio Caldas fala sobre principais desafios para especificar produtos sustentáveis que atendam a critérios da certificação BREeam.

Como funciona a certificação BREeam?
É dividida em três partes: critérios, projeto e obra. Na etapa de critérios, o selo informa sob quais critérios irá analisar a obra e nós, projetistas, podemos argumentar e tirar dúvidas. Na fase de projeto, enviamos as provas e, quanto maior o número de critérios cumpridos, maior a pontuação. Na fase de obra, temos que confirmar com provas (fotos, recibos, laudos, verificação do assessor etc.) que o projetado está sendo cumprido. Cada projeto é submetido ao BREeam para que sejam determinados quais critérios, dentre os vários apresentados em cada seção, serão avaliados.

Quais são essas seções?
São divididas em: administração; saúde e bem-estar dos ocupantes; energia; transporte; água; materiais; uso do solo; e ecologia. Em cada uma existem inúmeros critérios que são adaptados conforme o projeto. No Movimento Terras, os itens escolhidos relacionam-se a revestimento e equipamentos sanitários.

Como são classificados os materiais?
Existe um manual chamado Green Guide que apresenta informações sobre a classificação de materiais conforme sua composição. Por exemplo, ao submetermos uma janela, todos os componentes são avaliados. No caso do Movimento Terras, as janelas são de madeira com vidros monolíticos. Assim, quando esse item for analisado, ele será desconstruído em alizar, marco, folha, vidro e peitoril. Todos esses elementos precisam, necessariamente, ter bom conceito no Green Guide para que a média final seja satisfatória.

Quais critérios são levados em consideração?
Quanto menos energia a produção consumir, maior o conceito. Outro ponto importante é a emissão de CO2, seja na produção ou no transporte até o canteiro. O uso de materiais reciclados também conta pontos. Além destes, o uso de materiais não poluentes, a economia no consumo de água, a utilização de materiais que não fazem mal à saúde e o uso de madeira certificada pelo FSC (Forest Stewardship Council) também são avaliados.

E como funciona o Green Guide?
Na Europa, funciona como um manual onde estão catalogados os materiais já analisados pelo BREeam, com uma nota atribuída a cada um.

Tem sido possível replicar essa catalogação aqui no Brasil?
Um dos desafios rumo à certificação é a necessidade de estarmos em contato com o BREeam para adaptar os critérios à realidade brasileira. As diferenças de clima, legislação e até mercadológicas fazem com que esse processo seja ainda mais tortuoso. Tanto que o pessoal do BREeam já vislumbra a criação de um Green Guide específico para a América Latina, seguindo o exemplo da Ásia. As experiências adquiridas com o Movimento Terras serão a base para esse novo manual que norteará todas as certificações do selo no Brasil e na América Latina. Quem vier depois encontrará o caminho facilitado.

Os fornecedores nacionais, de modo geral, já atendem a esses critérios?
Essa foi, e ainda é, uma encruzilhada no processo de certificação no Brasil. Por um lado, o BREeam deve manter sua rigidez na análise dos critérios para continuar a ter a credibilidade que tem. Por outro, o mercado brasileiro ainda está se familiarizando com os conceitos da certificação ambiental e, por isso, atendê-los pode ser desafiador. Claro que existem fabricantes que apresentam produtos extremamente sustentáveis e que podem representar avanço na tecnologia ecoamigável. Porém, por serem iniciativas modestas, ainda não possuem toda a documentação exigida para serem aceitos no BREeam.

O quê vocês têm feito para vencer essa questão? 
Coube aos fornecedores apresentar produtos que atendessem às exigências por meio de laudos e ensaios elaborados por órgãos nacionais de análise e pesquisa reconhecidos pelo BREeam. Mas, de fato, ultrapassar essa deficiência tem sido um dos maiores desafios. Por outro lado, a experiência em projetos desse tipo tem motivado a indústria a se tornar mais organizada em relação ao seu catálogo de produtos sustentáveis.

Já há caso de movimentação do mercado nesse sentido?
A grande ideia do Movimento Terra é fazer com que as empresas se tornem cada vez mais ativas no desenvolvimento de produtos sustentáveis, divulgando-os e, com o tempo, tornando-os mais acessíveis. É quase certo que tais soluções serão replicadas em outros projetos e empresas, que desenvolverão produtos similares para concorrer, o que os deixará mais acessíveis.

O relacionamento com fornecedores certificados difere muito da parceria estabelecida com fornecedores convencionais?
É bastante diferente. O que vimos foi uma mobilização de nossos fornecedores para apresentar produtos compatíveis com as exigências técnicas. Porém, mais complicado que encontrar produtos e soluções dentro dos parâmetros foi reunir documentação aceita pelo BREeam. Em geral, as empresas possuem laudos para uso interno e, até então, acredito que nenhuma delas tenha tido que apresentá-los para nenhum cliente nos moldes que pedimos. Por isso, houve esforço dos parceiros em adaptar laudos para que pudéssemos enviá-los à Inglaterra.

Estamos falando só de grandes empresas?
De todos os portes. A cobertura do barracão de obras, por exemplo, é de telhas recicladas feitas de caixa de leite, solução da Ibaplac, empresa relativamente nova. Aliás, esse caso ilustra bem o resultado desejado. Por um lado, essa empresa teve que elaborar laudos para sua aceitação pelo BREeam, o que já a habilita a participar de futuras obras certificadas. Por outro, esse produto foi tão bem aceito que outras obras, mesmo sem caráter sustentável, estão usando telhas recicladas para seus próprios barracões.

Qual a maior dificuldade com os pequenos fornecedores?
Existe certo amadorismo de fornecedores menores que ainda não apresentam garantias e estudos confiáveis mostrando a qualidade e a durabilidade dos materiais. Em algumas ocasiões, a falta de documentação excluiu iniciativas interessantes.

Os custos de aquisição desses materiais são, necessariamente, mais altos dos que os dos produtos convencionais? 
Com as parcerias, foi possível conseguir preços competitivos com construções convencionais e com muito mais valor e tecnologia agregados. Devemos levar em consideração que no Movimento Terras teremos uma obra extremamente racional, com prazo de dez meses de execução e, apesar de serem casas diferentes entre si, existe metodologia construtiva e especificidades comuns entre elas que geram evidente economia de escala.

A especificação dos materiais seguirá um mesmo padrão nas oito casas?
O programa das casas é o mesmo e os projetos apresentam soluções racionais, como o uso dos mesmos materiais de construção e revestimento, mesma metodologia construtiva e padronização das áreas molhadas. Procuramos trabalhar com o melhor das soluções disponíveis na indústria, descartando o que não pudesse ser replicado em larga escala. Tivemos sucesso em muitas delas, porém algumas ficaram mais caras do que o desejado. É o caso do uso de células fotovoltaicas para abastecimento de energia. Apesar dessa tecnologia já estar disponível, o custo era inviável. Algumas exigências fazem com que o preço total seja, infelizmente, maior do que numa construção tradicional.

Pode citar alguns exemplos?
É o caso da madeira com selo FSC, que certifica a retirada com remanejo florestal e que toda a cadeia produtiva (cultivo, extração, manejo e transporte) conta com condições dignas e legais de trabalho, transporte, pagamento de impostos etc. Essas garantias encarecem o produto em relação às madeiras retiradas sem estes cuidados. Por isso, no Brasil, essa madeira é usada praticamente para exportação e quase não é produzida para o mercado interno. Por ser tão rara, o preço é maior do que a certificada pelo Ibama, por exemplo. Apesar disso, entendemos que o BREeam é um órgão internacional e que, por isso, só poderia aceitar certificações internacionais.

É possível adotar preceitos de sustentabilidade do BREeam em empreendimentos voltados para a baixa renda?
É possível e, sobretudo, desejável. Queremos mobilizar o mercado a produzir soluções sustentáveis, que economizam energia e água e reduzem a agressão ao ambiente a preços cada vez mais baixos. Quanto maior a produção, menor o preço. Pode demorar um pouco para vermos um prédio do programa Minha Casa, Minha Vida certificado pelo BREeam, mas, definitivamente, algumas soluções usadas pelo Movimento Terras já podem ser traduzidas para construções populares. Vale lembrar que quanto maior a escala do projeto, maior a possibilidade desses custos serem diluídos. O Green Guide ainda precisa ser difundido para os fornecedores de maneira mais ampla.

Como isso poderia ocorrer? 
Na Inglaterra, por exemplo, existem feiras de arquitetura sustentável, na qual os materiais já chegam ao público com sua classificação no Green Guide. Além disso, garantir uma certificação ambiental é tão natural quanto conseguir o “Habite-se” na prefeitura.

E onde buscar referências?
O Movimento Terras será um bom começo para quem quiser adotar uma atitude ecoamigável. O que me motivou a conceituar esse projeto foi a necessidade de termos um modelo de soluções sustentáveis disponível para qualquer um que esteja interessado no assunto. Por isso, o site www.movimentoterras.com.br reúne todas as informações e curiosidades sobre o conceito e o projeto das casas.

Entrevista original por Gisele Cichineli, na Revista Guia Construção e Mercado você encontra aqui.

Comentários

comentário(s)

Sobre Carlos Galassi

Arquiteto formado pela FAU/UFBa, possui especialização (MBA) em Gerenciamento de Projetos na FGV. Tem ampla experiência na implantação, gerenciamento e manutenção predial de empreendimentos de grande porte da Construção Civil, já tendo desempenhado estas atividades fora do Brasil. Além de Desenvolvedor e Editor do BIG, atua como Voluntário no PMI Capítulo Bahia como Diretor de Comunicação e Marketing e é sócio da OCA Solutions, empresa de consultoria empresarial.

Confira também

Legislações sustentáveis

Em terceiro lugar no ranking mundial, o Brasil é uma das nações mais avançadas em quantidade …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *