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Evolução Verde

Número de selos de sustentabilidade e de projetos certificados dispara em cinco anos, mas ainda representa parcela muito pequena das obras executadas no País.

A certificação de edifícios sustentáveis se disseminou com rapidez no Brasil. O primeiro projeto certificado no País foi a Agência Bancária Granja Viana do Banco Real (agora Santander), em 2007, com o selo Leadership in Energy and Environmental Design (Leed). Desde então, o número de empreendimentos certificados com o selo chega a 46 e o de registrados alcançou 503. A certificação Alta Qualidade Ambiental (Aqua), por sua vez, conta com 53 edifícios certificados em todo o País. Outros selos continuam desembarcando no País, com novos critérios de avaliação de implantação, projeto e execução, como o inglês Building Research Establishment Environmental Assessment Method (Breeam) e o DGNB, do Conselho Alemão de Construção Sustentável.

De acordo com o Green Building Council Brasil, apesar de exigirem tecnologias mais caras e projetos mais complexos, as obras sustentáveis já não apresentam custos iniciais tão maiores do que as edificações convencionais. A estimativa da entidade é que o incremento de custos de projeto e construção da agência-modelo sustentável – na época cerca de 30% – hoje ficasse em torno de 1% a 7%, dependendo do nível de certificação.

A aposta dos clientes é que o investimento seja recuperado a médio prazo, com a redução de custos condominiais. “Quase tudo o que se pode fazer para melhorar o desempenho ambiental dos edifícios também traz vantagens econômicas, como redução de despesas operacionais e de custos de manutenção”, afirma Marcelo Takaoka, presidente do Conselho Brasileiro da Construção Sustentável (CBCS). “Isso é uma oportunidade, pois o dinheiro que será economizado tem grande potencial de financiamento dessa sustentabilidade, tanto em edifícios novos como em edifícios usados”, conclui.

Como exemplo, ele cita as empresas que fazem retrofit operacional, requalificação ou reconversão de edifícios já existentes, e cobram seus honorários baseados nas economias geradas, principalmente na redução de consumo de água e de energia elétrica. Ou seja, o setor da construção civil, alerta Takaoka, sem grandes esforços pode obter avanços com relação à sustentabilidade e ainda ganhar dinheiro com isso. “Trata- se de uma oportunidade para bancos e incorporadoras, por exemplo, que podem financiar a sustentabilidade dos edifícios, pagando a conta com as economias geradas”, descreve.

Certificações em alta

Apesar da grande disposição e do interesse pelas certificações de sustentabilidade no País, há ainda um longo caminho a percorrer. A porcentagem de edifícios certificados em relação aos que são lançados, e mesmo aos que já existem, é ínfima. Segundo Marcos Casado, gerente técnico do Green Building Council Brasil, os empreendimentos sustentáveis representam 1% do mercado de construção civil no Brasil. Nos Estados Unidos, esse número chega a 9%. “O número de prédios certificados ainda é relativamente baixo”, afirma Casado.

Por ser um fenômeno recente, uma das dificuldades tem sido medir o desempenho ambiental dos edifícios certificados. “Estamos medindo o custo de operação dos edifícios Triple A que, em geral, fica entre R$ 16/m² e R$ 18/m². No edifício Triple A certificado, esse valor cai para uma faixa entre R$ 9/m² e R$ 11/m². Ou seja, uma economia entre 30% e 40%”, relata Roberto de Souza, diretor do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE).Mesmo assim, a evolução é significativa, na opinião de Roberto de Souza, diretor do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE). “O Brasil já ocupa a quarta posição mundial no ranking dos países com maior número de empreendimentos registrados pelo Leed, ficando atrás apenas dos EUA, China e Emirados Árabes”, afirma. Marcos Casado, do GBC Brasil, concorda: “O processo me parece irreversível, pois, desde novembro de 2011 temos recebido mais de um registro [de certificação Leed] por dia útil”, contabiliza.

Segundo Luiz Henrique Ferreira, diretor da Inovatech, a economia de custos com manutenção tem atraído o interesse dos investidores e empresas. “A Leroy Merlin, por exemplo, certificou pelo Aqua o programa, projeto e execução da sua primeira unidade sustentável, em Niterói, em 2008. Depois, incluiu também a operação. Os resultados têm sido tão bons que a empresa está implantando certificação de operação em mais quatro de suas lojas pelo País”, informa.

Ceticismo

Opinião diferente tem o engenheiro Vanderley John, professor da Escola Politécnica da USP. Para ele, a certificação de edifícios não deve levar a construção civil a se tornar sustentável. “Em termos de materiais, produtos e equipamentos para economia de água, e soluções para conforto e eficiência energética, temos diversas opções. Falta, no entanto, conhecimento para explorá-las. As soluções-padrão importadas nem sempre são boas para a realidade nacional. A seleção de produtos e sistemas, além da gestão do processo de projeto, é que devem trazer maiores benefícios sociais e ambientais”, acredita.

O professor demonstra ceticismo em relação aos benefícios dos edifícios certificados. “Eles são uma parcela muito pequena do mercado, uma elite. Não mudam o impacto ambiental e social médio do setor. Também não têm servido de inspiração, pois passam a mensagem que sustentabilidade requer grande investimento inicial”, afirma. Mas há bons exemplos, em sua opinião. “O Selo Casa Azul, da Caixa, é uma tentativa de promover ações simples, baratas e que na realidade brasileira são eficazes. É o mais adequado ao mercado residencial. É uma pena que não exista um investimento na promoção do selo e que ele somente seja viável aos clientes do financiamento”, exemplifica.

Ainda segundo John, as promessas de economia na fase de operação não têm se confirmado nos EUA. Artigos publicados mostram que muitos edifícios têm consumo maior que a média dos convencionais e o Departamento de Defesa, por exemplo, deixou de contratar a certificação. “O que acontece é que o número de pontos para o quesito energia parece não ter qualquer correlação com o desempenho energético real obtido pelo edifício certificado. Isso mostra que os modelos de simulação ainda necessitam melhorar muito. Precisamos ainda aperfeiçoar a capacidade de prever o comportamento dos usuários que, no caso de economia de água e energia, é decisivo”, reitera.

Linha do tempo
Fontes: Sustentabilidade: tendências da construção brasileira. Relatório técnico da pesquisa. São Paulo: CTE, Criactive, O Nome da Rosa Editora, 2010; Complementos: O Nome da Rosa Editora, Fundação Vanzolini, Inovatech Engenharia

1992
– ECO-92

Conferência da Organização das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, no Rio de Janeiro

1996
– ISO 14001

Criada norma internacional para auxiliar as empresas a identificar e gerenciar aspectos ambientais de suas atividades, produtos e serviços

2002
Marcelo Scandaroli
– Resolução 307
Elaborada pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil
2007
– CBCS

Surge o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, com o objetivo de levar o setor da construção a práticas sustentáveis
Divulgação: Trieme
– 1º selo Leed
Agência do Banco Real da Granja Viana, em Cotia (SP), é a primeira obra brasileira a receber a certificação Leed, do Green Building Council Brasil

 2008

– NBR 15.575
Publicação da primeira norma brasileira de desempenho, com ênfase na qualidade das habitações, manutenção periódica e durabilidade dos componentes das edificações

2009
– Procel Edifica

Eletrobras e o Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) lançam Etiqueta de Eficiência Energética de Edificações, por meio do Programa Nacional de Conservação de Energia (Procel)
Divulgação: Leroy Merlin
– 1º selo Aqua
Unidade da Leroy Merlin em Niterói (RJ) é a primeira construção brasileira a receber a certificação Alta Qualidade Ambiental (Aqua), emitida pela Fundação Vanzolini e adaptada de referenciais franceses

 2010

– Breeam
Residenciais do projeto Movimento Terras, em Teresópolis (RJ), são concebidos para atender critérios da certificação inglesa Building Research Establishment Environmental Assessment Method

Reprodução
– Téchne Verde
Em setembro, edição especial traz 40 perguntas sobre sustentabilidade na construção respondidas por especialistas
2011
Divulgação: Rôgga
– 1º selo Casa Azul
O empreendimento residencial Bonelli, em Joinville (SC), é o primeiro a receber o selo Casa Azul Caixa, Nível Ouro

 2012

– RGMat
Fundação Vanzolini lança selo para certificação de produtos e materiais sustentáveis com base no desempenho e durabilidade

Aprendizado 

Para Marcos Casado o futuro da sustentabilidade na construção civil já está desenhado, pois o setor está cada vez mais ciente dos impactos e vem se mobilizando para reduzi-los. “Grandes avanços já são percebidos nos sistemas de iluminação e equipamentos elétricos, sistemas hidráulicos, etc. Um dos itens mais importantes será a integração das diversas equipes envolvidas, assim como o pagamento dos projetos por desempenho, e não só por horas de trabalho. Outra área que ainda deve mudar muito é a do canteiro de obras, que necessita passar por um maior planejamento e controle, incluindo conceitos de green building e de lean construction”, ressalta Casado.

Adotar práticas, escolher sistemas construtivos, materiais, sistemas de economia de água e energia elétrica, entre outros, pode tornar a edificação sustentável, mesmo os que não buscam a certificação. “Existem as boas práticas que estão sendo implantadas em alguns edifícios, mas não da forma sistêmica e mensurável que a certificação exige. Por esse motivo, o selo tem tido um reconhecimento maior do mercado, pois ela inibe o green wash, ou maquiagem verde, que não garante ao empreendimento que seja sustentável de fato”, comenta Casado.

Atualmente, segundo os especialistas, os setores mais avançados em termos de produtos sustentáveis são o de tintas e revestimentos e o de iluminação, onde há vários produtos com materiais com baixo índice de compostos orgânicos voláteis (VOCs) e de baixo consumo e alta eficiência energética. Do ponto de vista da economia de água, os sistemas atualmente disponíveis podem atender de modo satisfatório às necessidades. Mas há potencial de melhoria nesses sistemas, a começar pela normatização dos produtos e equipamentos hidráulicos nacionais. Hoje, no Brasil, existem apenas normas referentes à vazão de vasos sanitários.

Divulgação: Inovatech Engenharia
Centro Sukyo Mahikari é um dos 53 empreendimentos certificados com o selo Aqua pela Fundação Vanzolini
Tendências

Manuel Carlos dos Reis Martins, coordenador do Aqua da Fundação Vanzolini, identifica uma tendência de melhoria na gestão dos canteiros, com o planejamento e definição antecipados do sistema construtivo, da logística, do layout do canteiro, os níveis de ruído, destinação de entulho, entre outras prioridades. Outra mudança é o foco na especificação dos materiais de construção com base em critérios de desempenho ambiental e durabilidade. “Considerar os critérios de desempenho para justificar as escolhas sustentáveis e definir o sistema de gestão, são atitudes que implicam gastar mais tempo na concepção e tornar mais fácil a execução, o que é uma mudança cultural importante em nosso País”, destaca.

De acordo com Luiz Henrique Ferreira, o brasileiro tem consciência ambiental e senso de preservação, pois convive com uma natureza exuberante e sabe o valor de preservá-la. Por outro lado, a legislação ambiental no Brasil é bastante exigente e o desafio é que ela seja cumprida e fiscalizada.

“O mais interessante é perceber que as empresas que aderem aos conceitos de sustentabilidade acabam se envolvendo profundamente com as questões e, além da economia de recursos, geram receita com o aproveitamento de resíduos da obra e da operação, ou mesmo reutilização”, avalia Ferreira. “O conceito de sustentabilidade está se ampliando e, no caso do Aqua, por exemplo, já há certificações não apenas de edifícios corporativos e comerciais, mas também de hospitais, escolas, edifícios residenciais, parque ecológico, bairros, retrofits e certificação de operações”, conta.

Ele acredita que em dez anos a construção sustentável não vai mais ser o diferencial, mas sim regra. “Uma tendência forte será a de retrofit, principalmente em cidades com limitações geográficas, como é o caso do Rio de Janeiro, que não tem mais para onde se expandir. O retrofit sustentável será o caminho para readequar edifícios, dando- lhes novos usos, modernizando sua operação e manutenção, para que os custos e economia poupem recursos financeiros e naturais, como energia e água”, destaca.

Ao mesmo tempo, a pegada de carbono deverá ser publicada junto com a embalagem dos produtos, permitindo ao consumidor escolher entre os que danificam menos o meio ambiente. “Para um futuro próximo devem aparecer linhas de crédito mais baratas para construções sustentáveis. Isso significa um ativo interessante para os bancos, pois um apartamento sustentável, além de ser mais valorizado tem mais liquidez na hora de vender”, finaliza Ferreira.

Reportagem original por Heloisa Medeiros na Revista Téchne está aqui.

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Sobre Carlos Galassi

Arquiteto formado pela FAU/UFBa, possui especialização (MBA) em Gerenciamento de Projetos na FGV. Tem ampla experiência na implantação, gerenciamento e manutenção predial de empreendimentos de grande porte da Construção Civil, já tendo desempenhado estas atividades fora do Brasil. Além de Desenvolvedor e Editor do BIG, atua como Voluntário no PMI Capítulo Bahia como Diretor de Comunicação e Marketing e é sócio da OCA Solutions, empresa de consultoria empresarial.

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