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Impacto construtivo

Antes de partir para soluções de ponta, construtoras habitacionais precisam fazer o básico no canteiro; conheça medidas que aumentam o grau de sustentabilidade construtiva sem demandar grandes investimentos.
 

Atingir a excelência em construção habitacional sustentável é tarefa complexa, que exige mudanças profundas nos processos de projeto, especificação, compras, construção, entre outros. Isso demanda tempo, investimentos e, segundo fontes consultadas nesta reportagem, ainda está longe de ser alcançado pelas incorporadoras e construtoras do segmento.

Especialistas também concordam que faltam inovações e soluções diferenciadas no segmento. Construtoras e empresas de projeto ainda preferem adotar soluções consagradas a buscar novos caminhos. “Já há um problema imenso de falta de insumos e de mão de obra, então é fundamental implementar novas tecnologias na produção da construção civil. Mas não estou vendo isso acontecer e são os incorporadores que precisam demandar esses avanços”, diz Roberto Lamberts, Professor Titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Outros entraves são a falta de visão global dos ciclos de vida do produto, de entendimento do impacto da construção civil em áreas urbanas, da criação de indicadores de impacto ambiental e de uma sistematização de procedimentos.Apesar de a sustentabilidade estar mais difundida entre essas empresas, os avanços efetivos ainda são tímidos. “Não se está conseguindo implantar no mercado imobiliário nem a gestão de resíduos como um todo. As construtoras de grande porte até estão fazendo a sua parte, mas a Prefeitura de São Paulo, por exemplo, não possui lugares adequados para esses descartes. Sem contar que ainda temos casos de mão de obra escrava registrados na cidade. Há muito que evoluir”, critica Vanderley Moacyr John, professor do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

De volta ao básico 

Para um setor que ainda está longe de atingir a excelência em construção sustentável, o importante é começar pelo básico. E nem isso, segundo as fontes consultadas, tem sido praticado pelas empresas. Há uma série de soluções já consolidadas que não dependem de grandes investimentos, como adoção de processos construtivos industrializados e materiais para consumo racional de água e energia, além de um bom projeto arquitetônico que favoreça, entre outros aspectos, a iluminação natural e a ventilação, essenciais para diminuir o impacto ambiental e aumentar o bem estar do usuário. “Ainda temos muito para crescer nesse sentido. Existe ainda muito marketing, muita divulgação de forma a valorizar edifícios que se dizem sustentáveis, mas que nem o básico fazem direito”, diz Vera Fernandes Hachich, sócia- -gerente da Tesis, empresa de tecnologia de sistemas de engenharia.

Durante a obra, por exemplo, se a construtora já tiver implantado um sistema de gestão da qualidade, é possível obter ganhos importantes com ecoeficiência sem nenhum investimento adicional. Uma obra racional, portanto, tem grandes chances de ser sustentável; porém, não é apenas isso. “A construção é uma fase do edifício. Pode ser que na concepção ou projeto da edificação se tenha pensado também nas questões de uso racional da água e da energia, modulação, iluminação e ventilação natural etc., mas pode ser que não e ainda assim haver um processo de construção racionalizado. Um edifício, para ser sustentável tem que ter sido concebido e projetado desde o início com esses conceitos. Então construção racional não é sempre sinônimo de construção sustentável”, explica Vera Hachich.

Marcelo Scandaroli
Um dos principais desafios da construção imobiliária é adotar medidas sustentáveis em empreendimentos populares, onde há pouca tolerância a variações de custos

Outro ponto importante é a própria construção do canteiro, estrutura provisória que vai ser desmobilizada ao final da obra. O ideal é que as instalações sejam feitas com materiais que contenham características reaproveitáveis e desmontáveis, utilizando-os em outros canteiros.

Planejamento do canteiro

O planejamento em projeto é fundamental para reduzir o impacto do canteiro durante a etapa de construção. Pode-se, por exemplo, prever modulações na estrutura e privilegiar a construção seca, pré-fabricando ao máximo a edificação. No entanto, os cuidados vão além. Segundo Luiz Henrique Ferreira, diretor da Inovatech, os impactos podem ser separados em cinco classes. A primeira é a vizinhança: uma obra sustentável não produz fortes incômodos aos moradores da região. Atividades que são mais ou menos ruidosas podem ser organizadas no canteiro sem gerar grandes transtornos. “Em um canteiro de obras em que, por exemplo, uma das divisas está voltada para uma avenida de grande tráfego e a outra para uma área residencial, é importante que se coloque a área de carga e descarga e as betoneiras próximas da avenida e o almoxarifado e as áreas administrativas, mais silenciosos, do lado da vizinhança”, sugere Ferreira.

O terceiro ponto é a gestão da água e energia durante a obra, assim como será feito no empreendimento pós-ocupação. “Aproveitamento de água de chuva, claraboias, telhados brancos, torneiras com redutores de vazão, chuveiro com fechamento automático, aquecimento solar das águas do chuveiro com garrafa PET são algumas práticas que usamos nos canteiros da empresa”, conta José Roberto Leite, engenheiro do Departamento de Tecnologia da BKO.

A gestão de resíduos é outro aspecto indispensável. Antes de começar a obra, o empreendedor deve entender qual o tipo e volume de resíduo que serão gerados. Com base nisso é possível dimensionar o tamanho do espaço para armazenagem de determinado resíduo, inclusive os perigosos – cuja destinação deve atender a NR-18 e a Resolução Conama 307 -, e qual o aproveitamento que poderá ser dado aos materiais descartados, contratando, inclusive, cooperativas especializadas na coleta desses produtos.

A gestão de resíduos no canteiro não necessariamente onera o valor da obra, pelo contrário, tende a conter custos. “Hoje em dia na cidade de São Paulo uma caçamba está muito cara, custando quase 200 reais. Então, imagina uma obra que precisava de cinco mil caçambas passar a ter quatro mil, é uma redução significativa de despesa”, exemplifica Ferreira.

Por fim, é preciso garantir a qualidade de execução do edifício, com mão de obra especializada, processos bem-definidos e fiscalização contínua. Vale lembrar que corrigir uma falha de construção sempre vai ser mais caro do que fazer benfeito, além de economizar tempo, manutenção e volume de resíduos.

Apesar de não estarem diretamente ligados ao canteiro de obras, outros quesitos também devem ser avaliados visando o desempenho do projeto. A escolha de produtos e sistemas construtivos que sejam de baixo impacto ambiental é um deles. Essa especificação deve ser feita de acordo com o conceito de Análise do Ciclo de Vida do Produto, que considera o impacto ambiental desde o momento em que a matéria-prima é extraída da jazida, passando pela fabricação, pelo transporte, uso e descarte ou reaproveitamento do material. Nessa mesma linha, é importante a escolha da compra de produtos de empresas formais e comprometidas com a sustentabilidade e com a qualidade dos produtos. A ferramenta dos “seis passos”, do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), pode auxiliar o construtor na seleção de insumos e fornecedores, verificando se a empresa, de forma geral, cumpre as leis brasileiras pagando impostos, respeita o meio ambiente e a legislação trabalhista, e entrega produtos de boa qualidade, de acordo com padrões e normas técnicas. Para conhecer os detalhes da metodologia, acesse: www.cbcs.org.br/selecaoem6passos.

Além da certificação

As certificações ambientais foram importantes ferramentas para disseminar muitos dos valores sustentáveis na construção civil. Isso porque, apesar dos selos darem maior enfoque à fase de projeto, a instalação efetiva dos dispositivos previstos deve ser provada após a execução da obra, assim como o uso racional dos recursos, o gerenciamento de resíduos e a redução dos incômodos.

Esses processos de avaliação dão mais credibilidade aos empreendimentos, visto que muitos consumidores duvidam da reputação e da qualidade dos produtos e serviços vendidos como sustentáveis e chegam até a confundir o conceito com ecologia, baixa qualidade, rusticidade etc. “As certificações foram um primeiro passo, que fez com que a indústria fosse despertada para esse tema, se reorganizando no sentido de entender que existia um valor agregado uma economia em prol dessa certificação”, afirma Adriana Levisky, arquiteta e urbanista do escritório Levisky Arquitetos Associados e conselheira do CBCS.

Por outro lado, nenhuma certificação garante um desempenho sustentável, o que trazem são elementos que asseguram que o edifício possua condições técnicas e arquitetônicas para tal desempenho. Essa limitação ocorre porque nenhuma delas poder reverter o fato de que o empreendedor não tem poder sobre o comportamento dos futuros usuários e responsáveis pela operação do edifício – embora se prevejam dispositivos, são eles quem vão fazer uso deles, que podem não respeitar as orientações passadas. Há, portanto, a necessidade de uma permanente educação da sociedade quanto ao tema: os usuários e os técnicos têm que mudar seu comportamento para que se tenha melhor desempenho dos edifícios em uso, sejam eles certificados ou não.

“Existem estudos no mercado norte-americano que mostram que em nenhum dos selos é possível confirmar que um prédio certificado economiza energia. Infelizmente, estamos muito atrás no Brasil, porque existe menos tecnologia de produção e a verificação ainda é muito informal. Portanto, se nem em um mercado como o americano funciona, imagina aqui”, diz Vanderley Moacyr John, da Poli-USP. Mesmo assim, reconhece-se a importância da ferramenta. “A métrica em muitos casos está desacoplada da realidade brasileira, mas muitas vezes colocar uma etiqueta ou um selo de sustentabilidade causa várias melhorias naquela obra”, salienta Roberto Lamberts, da UFSC.

HIS com aval do projeto Sushi

Solicitado pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) e pertencente ao Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar, o loteamento Rubens Lara – Jardim Casqueiro, em Cubatão (SP), valoriza a construção sustentável em habitações de interesse social. O projeto foi reconhecido como alternativa de construção verde que pode ser replicada em casas populares pelo Sushi (sigla em inglês para Iniciativa de Habitação Social Sustentável), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, desenvolvido no Brasil em parceria com o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS). Com previsão de entrega para 2014, as unidades do conjunto habitacional serão ocupadas pela população que hoje vive em áreas de risco.

“Esse projeto tem uma questão cultural muito importante que é entender o universo dos moradores e oferecer um espaço que não seja abandonado ou sucateado pouco tempo depois”, explica Adriana Levisky, arquiteta e urbanista do escritório Levisky Arquitetos Associados, responsável pelo projeto. Para isso, utilizou-se da lei de parcelamento do solo, criando um loteamento com ruas públicas e terrenos particulares, e trazendo o ambiente da cidade para dentro do empreendimento. O terreno de 198 mil m2 dará origem a oito lotes institucionais, sete de áreas verdes, dois comerciais e 26 residenciais, com 1.840 unidades de habitação.

As áreas residenciais são compostas por condomínios de diferentes tipologias, com casas misturadas a prédios de quatro ou oito pavimentos e apartamentos de dois e três dormitórios. A arquitetura e posicionamento das unidades criam ambientes ventilados e com insolação adequada. As edificações possuem janelas de quatro folhas, que, em vez das convencionais duas folhas, aumentam o conforto, a salubridade e reduzem custos com iluminação e ventilação artificial. Os imóveis terão aquecedores solares, cujo custo unitário apesar de ainda ser alto para a baixa renda, foi reduzido por conta da grande quantidade de sistemas adquiridos. Para minimizar a manutenção pós- -ocupação, ponto crucial em habitações deste tipo, alguns cuidados foram tomados na especificação de materiais. Por exemplo, as alvenarias são revestidas com pastilha produzidas com materiais reciclados que, em comparação com a pintura, têm mais durabilidade na região litorânea, além de fácil limpeza.

O desenho universal é outro destaque do projeto. “Pudemos aplicar o desenho universal nos espaços públicos e privados, fazendo, por exemplo, o alargamento das calçadas, a criação de faixas elevadas de travessia das ruas e optando por apartamentos flexíveis, detalha Levisky.

Os dois lotes comerciais abrigarão os serviços básicos para a região e as áreas verdes representarão 15% da área, provendo ainda espaços de lazer e de shows, ciclovias e quadras esportivas. O projeto foi desenvolvido em parceria com o arquiteto Eduardo Martins Ferreira.

Alto padrão certificado

Destinado a um público de alto-padrão, o Horizon Residence Premium, em Campinas, São Paulo, foi desenvolvido visando cinco premissas: reduzir o consumo de energia e as emissões de poluentes na atmosfera, diminuir o consumo de água potável, limitar a produção de lixo privilegiando a coleta seletiva, gerenciar o emprego de materiais e matérias-primas renováveis e garantir as condições de conforto, saúde e acessibilidade para os usuários.

O empreendimento residencial multifamiliar contará com quatro torres de até 23 pavimentos, com quatro apartamentos por andar (115 m2 e três dormitórios cada), totalizando 368 unidades. A concepção dos projetos de arquitetura e paisagismo se preocupou, em primeiro lugar, com a harmonização da construção e o entorno, valorizando as espécies vegetais nativas. “O paisagismo tem como diretriz melhorar a qualidade ambiental do terreno (onde não havia vegetação significativa), proporcionando condições de conforto e acolhimento aos usuários, através do aumento das áreas permeáveis, da implantação de áreas verdes e da concepção cuidadosa dos espaços exteriores”, conta Ana Rocha Melhado, sócia-diretora da Proactive, consultoria especializada nas áreas de Gestão de Projetos e Sustentabilidade Empresarial.

Depois, o projeto partiu para análise de critérios específicos. Um deles foi a gestão da água. Este recurso está presente no terreno de quatro maneiras distintas: água de chuva, escoamento difuso, rede pública de água potável e rede de esgoto. De acordo com as premissas do empreendedor, foram propostas estratégias para a economia de água potável, como a instalação de equipamentos economizadores e da sensibilização dos usuários. Também serão aplicadas soluções de retenção e infiltração, já que a taxa de permeabilidade do terreno será a maior possível. O reaproveitamento da água, no entanto, será feito com ênfase na qualidade sanitária, garantindo a potabilidade e evitando o desenvolvimento de doenças.

Já a localização privilegiada do empreendimento em relação às vistas será valorizada através da implantação e orientação das torres, bem como por meio de esquadrias melhor posicionadas em ambientes de permanência prolongada, melhorando a iluminação natural e o conforto dos usuários.

Em relação à produção de resíduos no canteiro de obras, o desafio é minimizar a produção desses materiais e desenvolver processos de triagem e coleta seletiva.

Do ponto de vista social, logo no início da construção a Brookfield Incorporações vai realizar contatos com os vizinhos, fazer vistorias nas edificações antes de começar as atividades do canteiro e disponibilizar canais permanentes de comunicação com os moradores da região e eventuais visitantes. Os trabalhadores passarão por treinamentos e orientações relacionadas ao bom uso do canteiro, coleta seletiva e respeito mútuo.

Considerando o processo de certificação, o investimento nessas práticas deve girar em torno de 1,5% a 2,5%.

Artigo original por Ana Paula Rocha na Construção e Mercado, com mais alguns gráficos e detalhes sobre as obras você encontra aqui.

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Sobre Carlos Galassi

Arquiteto formado pela FAU/UFBa, possui especialização (MBA) em Gerenciamento de Projetos na FGV. Tem ampla experiência na implantação, gerenciamento e manutenção predial de empreendimentos de grande porte da Construção Civil, já tendo desempenhado estas atividades fora do Brasil. Além de Desenvolvedor e Editor do BIG, atua como Voluntário no PMI Capítulo Bahia como Diretor de Comunicação e Marketing e é sócio da OCA Solutions, empresa de consultoria empresarial.

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