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Indicadores de sustentabilidade

Utilizar esses parâmetros na hora de construir pode colaborar para o futuro da Construção Civil

Desenvolvidos com um objetivo específico, os indicadores são parâmetros ou derivados que fornecem informações sobre determinado evento. Suas principais características são reduzir o número de medidas, bem como os parâmetros necessários para descrever determinada situação. “Consequentemente, o número de índices e o nível de detalhamento contido num conjunto de indicadores têm de ser limitados. Por um lado, um índice único ou um número demasiadamente pequeno de indicadores podem ser insuficientes para prover a informação necessária ou podem incorrer em dificuldades metodológicas que crescem com o nível de agregação de informações. Por outro, um número excessivo de índices tende a distorcer a visão geral que o conjunto supostamente deveria fornecer”, explica Vanessa Gomes, professora livre-docente da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Outra característica dos indicadores é simplificar o processo de informação por meio do qual os resultados dessas medidas chegam ao usuário final.

O estabelecimento de metodologias de avaliação de sustentabilidade pressupõe a utilização de indicadores de sustentabilidade confiáveis, representativos, comparáveis e rastreáveis. “Para ser útil, um indicador deve, portanto, permitir uma explicação das razões das mudanças em seu valor ao longo do tempo, ser suficientemente simples na maneira com que descreve problemas frequentemente complexos, e usar definições comuns de componentes-chave e normalização para permitir comparações”, explica Gomes. Os indicadores de sustentabilidade descrevem os impactos ambientais, econômicos e sociais de edifícios para os proprietários, usuários dos edifícios e demais partes interessadas da indústria de construção. Tais métricas são necessárias para simplificar e comunicar informações complexas, e podem ser utilizadas para avaliação, diagnóstico, comparação e monitoramento.

FUNÇÕES DOS INDICADORES

Os indicadores de sustentabilidade capturam tendências para informar os agentes de decisão, orientar o desenvolvimento e o monitoramento de políticas e estratégias, e facilitar o relato das medidas adotadas para implementação do desenvolvimento sustentável. “Ao fornecerem as informações e retroalimentação necessárias para a tomada de decisões, eles facilitam o estabelecimento de metas e o desenvolvimento de padrões de referência para avaliação e monitoramento de desempenho (benchmarking); de medir ou descrever o desempenho (aderência às metas estabelecidas) de programas, ações, edifícios e projetos, de diferentes agentes do processo de construção ou de diferentes regiões ou países; monitorar periodicamente o progresso em direção à sustentabilidade; propiciar comunicação com clientes e demais partes interessadas; e derivar benefícios diretos de relato de sustentabilidade e de benchmarking do desempenho”, explica a professora.

Para Gomes deve ficar claro que, mesmo sendo utilizado, um indicador não é um número, mas sim uma variável à qual pode ser medido ou atribuído um valor – quantitativo ou qualitativo. “Convém esclarecer também que, apesar de influenciarem o desempenho com relação a vários itens de sustentabilidade, recomendações práticas ou diretrizes para a seleção de materiais, produtos e sistemas não são indicadores. Eles possuem natureza mais genérica, enquanto os valores a eles atribuídos são específicos para cada caso. Já as recomendações práticas, que favorecem determinado tipo de soluções técnicas, dependem de circunstâncias geográficas (clima) e tecnológicas, e podem ser validadas com a ajuda de indicadores”, diz.

Indicadores de sustentabilidade surgiram primeiro na esfera das nações, em resposta à Agenda 21 “No entanto, métricas são necessárias em todos os níveis, pois podem não só apontar o caminho, como também mostrar se e de que maneira ocorre o movimento da sociedade, do setor de construção, de uma organização e da produção de edifícios em direção às metas nacionais de desenvolvimento sustentável. Os índices definidos em esfera de avaliação mais restrita – edifício ou ambiente construído – devem alinhar-se aos indicadores e metas de desenvolvimento sustentável definidos em âmbito nacional e mundial”, explica Gomes, dizendo que apesar de fundamentais para ajudar a unificar a tomada de decisão econômica, social, ambiental e institucional, indicadores por si não são capazes de promover melhoria de performance. “Metas de desempenho e benchmarks(desempenhos de referência) para cada indicador são igualmente necessários, para, de um lado, calibrar a análise (definir a escala de desempenho) e permitir a avaliação do progresso e, de outro, encorajar a alocação apropriada de recursos para alcançar a taxa de progresso desejada. Finalmente, para ser utilizado, um indicador deve ser acompanhado, ainda, de uma explicação quanto ao modo e à fonte de informação utilizada para atribuir valor a ele”, diz.

INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE PARA O SETOR DE CONSTRUÇÃO

Em 1995, a CIB Working Commission W82 “Future Studies in Construction” (CIB W82) criou o projeto Construction Related Sustainability Indicators – CRISP (1999-2001) para o desenvolvimento de indicadores de sustentabilidade para o setor de construção, numa cooperação entre Japão, Malásia, Canadá, Estados Unidos e a EC CRISP Network, que congrega 24 membros em 16 países europeus. Dentre os objetivos iniciais pretendia-se desenvolver uma estrutura de indicadores organizados com base no modelo dose-estado-resposta (DSR) e em categorias/etapas processuais em cinco níveis de abrangência crescente: edifício, urbano, regional, nacional e global. “Os objetivos do Projeto CRISP eram definir e validar indicadores – quantitativos e qualitativos – de sustentabilidade relacionados ao setor de construção, incluindo aspectos ambientais, econômicos, sociais, culturais e institucionais. Eles deveriam considerar todo o processo de produção do edifício, que começa no início do projeto e termina no fim do ciclo de vida da facilidade, incluindo demolição e eventual tratamento posterior.

INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE DE EDIFÍCIOS

Gomes conta que existem diferenças fundamentais entre o conceito puro de indicadores de sustentabilidade e os índices utilizados – ou passíveis de utilização neste momento – em sistemas de avaliação de edifícios. “Os métodos de avaliação ambiental de edifícios disponíveis tipicamente não abordam os aspectos sociais e econômicos da sustentabilidade e são dirigidos a edifícios individuais. Já a discussão de indicadores de sustentabilidade (particularmente, de indicadores sociais e econômicos) relaciona-se a medidas mais gerais da sociedade, como redução de pobreza, analfabetismo e PIB, que não são facilmente relacionadas à escala organizacional ou de um edifício”, diz a professora.

Apesar de os edifícios serem bens de longa vida útil, se comparados a outros bens de consumo, a maioria dos fenômenos naturais e culturais significativos mostra longas tendências que não são nem mesmo percebidas no curto prazo; e a escala temporal, até que ocorra um realinhamento significativo em direção a um mundo sustentável, será certamente medida em gerações. “O desempenho ambiental de edifícios é relativo, avaliado em relação a desempenho ‘típico’, seja explícita ou implicitamente. Ao longo do tempo, edifícios individuais, assim como as práticas de vanguarda e práticas típicas melhoram. Consequentemente, a pontuação de desempenho é válida apenas no ponto particular no tempo em que foi realizada a avaliação”, revela Gomes.

O Brasil já conta com alguns esforços para estabelecer indicadores de sustentabilidade, que, no entanto, variam largamente e são definidos de acordo com critérios e metodologias não necessariamente replicáveis. “Para que o país possa avançar no desenvolvimento de indicadores de sustentabilidade de seu ambiente construído é preciso definir uma metodologia consensual para estruturar indicadores, coletar dados, definir parâmetros nacionais alinhados às tendências internacionais, assim como um bloco dos índices locais relevantes em cada caso; medir ou atribuir valores; interpretar e, eventualmente, agregar indicadores. Uma base de dados robusta deve ser criada e mantida atualizada e amplamente acessível”, diz Gomes.

Original publicado pela redação Redação AECweb / e-Construmarket está aqui.

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Sobre Carlos Galassi

Arquiteto formado pela FAU/UFBa, possui especialização (MBA) em Gerenciamento de Projetos na FGV. Tem ampla experiência na implantação, gerenciamento e manutenção predial de empreendimentos de grande porte da Construção Civil, já tendo desempenhado estas atividades fora do Brasil. Além de Desenvolvedor e Editor do BIG, atua como Voluntário no PMI Capítulo Bahia como Diretor de Comunicação e Marketing e é sócio da OCA Solutions, empresa de consultoria empresarial.

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