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Sustentabilidade à prova

Programas de certificação ambiental se expandem no Brasil, mas evolução ainda é tímida no segmento residencial. Falta quantificar economias de água e energia no pós-obra e conscientizar o comprador.

Nos últimos anos têm chegado ao mercado brasileiro diversos processos de certificação ambiental, voltados tanto para materiais de construção quanto para empreendimentos. Selos e etiquetas ganham espaço no mercado como forma de sinalizar aos consumidores que a empresa adota práticas ambientalmente responsáveis. O interesse crescente do mercado fica nítido nos números registrados pelas empresas de certificação.

Em 2011, o Green Building Council Brasil recebeu 197 registros de empreendimentos em busca da certificação Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), mais que o dobro dos candidatos registrados em 2010. Só em fevereiro deste ano foram 36 pedidos, número recorde na história da organização, fundada em 2007. Paralelamente, a demanda pelo Processo Aqua – Alta Qualidade Ambiental também vem registrando aumento ao longo dos últimos anos. Lançado pela Fundação Vanzolini em 2008, o selo já contabiliza 39 empreendimentos certificados, sendo sete em 2009, 14 em 2010, 16 em 2011 e mais dois até fevereiro de 2012.

Os avanços, no entanto, se concentram principalmente no segmento comercial. Basta notar que, até março deste ano, não havia nenhum prédio residencial certificado pelo Leed no Brasil, embora 17 estivessem passando pelo processo. Já no Aqua, dos 39 selos emitidos, apenas seis são residenciais. Para Manuel Martins, coordenador executivo do Processo Aqua, o interesse do segmento existe e é apenas uma questão de tempo para que a procura se iguale à do comercial. “Extendemos o Aqua ao segmento residencial no início de 2010 e temos vários empreendimentos começando o processo agora. Hoje, a demanda residencial já passa de um terço do total das nossas certificações”, garante.

A demora dos selos para decolar no segmento habitacional se deve, em partes, ao fato de as próprias certificadoras terem focado primeiro na área comercial. É o caso do Aqua e da etiqueta Procel Edifica, cuja versão residencial saiu no final de 2010, mais de um ano depois da etiqueta para prédios comerciais, públicos e de serviço. Mas há também um obstáculo financeiro. Certificar um edifício costuma encarecê-lo e nem sempre o futuro morador está disposto a absorver este acréscimo no preço final do imóvel.

No segmento corporativo, as empresas proprietárias ou locatárias dos edifícios já aceitam pagar mais caro por um empreendimento certificado, pois conseguem calcular o retorno deste investimento ao longo do tempo, com economia de água e energia elétrica. Já no segmento residencial, a maior parte dos compradores ainda não aprendeu a fazer esta conta. “O consumidor não vê com clareza que um eventual sobrepreço será recuperado ao longo dos anos. Ele não dá valor a isso, ou porque desconhece esta vantagem, ou porque tem outras prioridades na compra, como preço”, afirma Francisco Ferreira Cardoso, professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). “Falta visão de longo prazo, por isso o crescimento da certificação nesse mercado vai demorar um pouco mais.”

Impactos de custos

As próprias incorporadoras ainda não sabem quantificar a economia futura para comunicar seus compradores. É o caso da Even, que recebeu o selo Aqua nas fases de programa e projeto do residencial True Chácara Klabin, e passa agora pela certificação na fase de obra. O diretor técnico e de sustentabilidade Silvio Gava revela que as adaptações necessárias ao selo tiveram impacto de 2,89% no orçamento, mas a empresa não sabe precisar qual será o reflexo nas contas do condomínio. A solução foi arcar com o aumento de custos.

“Esses 2,89% foram absorvidos pela empresa, não mexemos no preço de venda, até porque recebemos o selo depois do lançamento. O que temos que fazer é aumentar a eficiência na obra, reduzir o desperdício e ter maior controle para conseguir um custo de construção mais eficiente”, afirma. Gava considera baixo o acréscimo de 2,89% e ressalta que a Even testou o Aqua num empreendimento relativamente pequeno, ou seja, um terreno com apenas uma torre. Para ele, quando a certificação for aplicada a empreendimentos maiores, o custo tende a se diluir e esse percentual pode diminuir ainda mais.

A opinião é compartilhada por Claudio Teitelbaum, diretor da construtora gaúcha Joal Teitelbaum. A empresa está construindo o condomínio Príncipe de Greenfield, um dos 17 candidatos residenciais ao Leed em análise atualmente. O diretor conta que a adequação às diretrizes do Leed inflaram o orçamento em 3,5%. “Mas este acréscimo depende muito do padrão e do tamanho da obra. Em empreendimentos maiores, com orçamento mais elevado, o impacto é significativamente menor, pois muitos dos equipamentos e sistemas não variam com o tamanho da obra e o custo torna- se irrisório”, afirma.

Embora caminhe a passos lentos, a certificação no residencial tende a ganhar força. A Caixa Econômica Federal lançou em 2010 o Selo Casa Azul, um processo voltado especialmente ao segmento habitacional e que vai funcionar como critério para concessão de melhores taxas de crédito futuramente (veja seção entrevista). Já a etiqueta Procel Edifica deve se tornar obrigatória, não apenas para o residencial, mas para todas as edificações a partir de 2030. Para Francisco Cardoso, “o Brasil está evoluindo bem na questão de certificações. Em termos de volume, essas coisas são lentas mesmo, mas está havendo uma progressão. O fato de termos duas certificações de edifícios – Aqua e Leed – além do Selo Casa Azul da Caixa e de outros que estão chegando ao País mostra que existe mercado para isso”.

Vale ressaltar que ter uma certificação não é pré- -requisito para que a construtora trabalhe de forma sustentável, mas é uma forma de atestar estas práticas por meio de processos de avaliação objetivos. “Não adianta a empresa atender a todos os requisitos de sustentabilidade se ela mesma se autodeclarar sustentável. O comprador leigo enxerga na certificação uma terceira parte garantindo o que a construtora está fazendo”, diz Silvio Gava, da Even. Francisco Cardoso complementa: “A certificação é relevante, mas não é a solução para todos os problemas. O importante é que o material seja sustentável, que o edifício seja sustentável, que a cidade seja sustentável. A certificação apenas cumpre seu papel no alcance desses objetivos”.

Construção Mercado reuniu representantes de cinco processos de certificação para discutir o tema e esclarecer as principais dúvidas dos incorporadores sobre o assunto. O objetivo não é apontar o melhor ou o pior selo, mas sim elucidar questões práticas para quem se propõe a passar por estes processos. Acompanhe, a seguir, os principais trechos do debate.

Conheça as certificações

Leed – Leadership in Energy and Environmental Design

O Leed é um sistema de certificação ambiental de edificações criado pelo U.S. Green Building Council e coordenado localmente pelo Green Building Council Brasil. A certificação envolve o atendimento de oito pré-requisitos, obrigatórios para que o projeto seja certificado, e de uma série de itens opcionais, que somam pontos. Caso atinja no mínimo 40 pontos, o prédio recebe a certificação Leed básica. A partir de 50 pontos, recebe o certificado prata. Com 60 pontos, recebe o selo ouro e a partir de 80 pontos, a certificação máxima, platina. O processo acompanha todo o cronograma do empreendimento, desde a escolha do local de implantação até a entrega da obra. As avaliações são feitas por meio de documentação e de auditorias in loco.

 

Processo Aqua

Coordenado pela Fundação Vanzolini, o Processo Aqua foi desenvolvido com base na certificação francesa Démarche HQE. O empreendimento é avaliado nas fases de programa, concepção (projeto) e realização (obra), com certificados emitidos a cada fase. O selo tem 14 categorias de análise que podem ser classificadas nos níveis bom, superior ou excelente. Para receber o certificado, o empreendimento precisa ter, no mínimo, três categorias avaliadas como excelentes e quatro como superiores. Além disso, o empreendedor precisa desenvolver um sistema de gestão do empreendimento, para organizar o trabalho e dar suporte às três etapas da certificação. As avaliações são feitas por meio de análise da documentação do projeto e auditorias in loco.

 

Selo Ecológico Falcão Bauer
O selo avalia materiais de construção civil em relação aos impactos ambientais causados por eles, desde a extração da matéria-prima até o descarte final. O processo se dá por meio de auditorias do processo produtivo, avaliação do ciclo de vida do produto, ensaios laboratoriais e coleta de dados. Além do selo por bom desempenho ambiental, há categorias específicas para produtos reciclados e produtos provenientes de recursos renováveis.

 

Procel Edifica

Programa de etiquetagem do Governo Federal que tem como objetivo promover a eficiência energética em edificações, classificando-as em níveis que vão de “A” até “E”. A etiqueta é concedida em duas fases: durante o projeto e após a conclusão da obra. Nos edifícios comerciais, de serviços e públicos são avaliados três sistemas: envoltória, iluminação e condicionamento de ar. Já nos residenciais, são avaliados a envoltória e o sistema de aquecimento de água, além dos sistemas presentes nas áreas comuns como iluminação, elevadores, bombas centrífugas etc. Os projetos podem ser avaliados pelo método prescritivo ou por simulação computacional, enquanto o edifício construído deve ser avaliado por meio de inspeção in loco.

 

Selo Sustentax

Sistema voltado à rotulagem de produtos diversos, entre eles, materiais de construção. São analisados atributos essenciais (salubridade, qualidade funcional e ambiental, responsabilidade socioambiental e comunicação), atributos complementares (design, fabricação e comercialização), e atributos suplementares, não relacionados diretamente à sustentabilidade do produto, mas que dão contribuições positivas à sociedade ou ao meio ambiente. O processo envolve análise de documentação, realização de ensaios e avaliação do material de comunicação. Incorporadoras, construtoras e escritórios de arquitetura também podem receber o selo. No caso das construtoras, são estabelecidos procedimentos para mitigar os riscos e impactos nos canteiros de obras.

 
O artigo original por Pâmela Reis na Revista Construção e Mercado você encontra aqui.

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Sobre Carlos Galassi

Arquiteto formado pela FAU/UFBa, possui especialização (MBA) em Gerenciamento de Projetos na FGV. Tem ampla experiência na implantação, gerenciamento e manutenção predial de empreendimentos de grande porte da Construção Civil, já tendo desempenhado estas atividades fora do Brasil. Além de Desenvolvedor e Editor do BIG, atua como Voluntário no PMI Capítulo Bahia como Diretor de Comunicação e Marketing e é sócio da OCA Solutions, empresa de consultoria empresarial.

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